NOTÍCIAS

Nem só de pão!

May 2, 2017

 Por Helen Schmidt

 

Missionária compartilha experiência após trabalhar com refugiados sírios

 

Era alta madrugada naquele acampamento na Sérvia, dirigido pela União Europeia, onde diversas instituições humanitárias de apoio às vítimas da guerra oferecem ajuda a refugiados sírios. A brasileira Cláudia Costa, que é Associate Area Leader (faz parte da equipe de liderança) da agência missionária OM – Operação Mobilização – na Europa e sua colega de voluntariado ouviram alguns bocejos de despedida e discretos barulhos de zíperes que fechavam a entrada das barracas de outros grupos de apoio naquele lugar. O dia havia sido intenso no socorro aos refugiados que passaram seguindo viagem rumo à Alemanha, país almejado pela maioria deles. O silêncio e o frio intenso tomavam conta daquela região e aquela calmaria era como um paradoxo ao estrondo ensurdecedor de bombas e rajadas, a que os visitantes estavam acostumados a ouvir. Era hora de descanso, pois tudo indicava que não haveria mais nenhum atendimento a ser feito e, para Cláudia e sua amiga, a chegada de mais algum refugiado àquela hora era preocupante, pois o grande número de atendimentos do dia anterior deixou-as quase sem nenhum mantimento a oferecer.

 

“Peguei meu casaco e segui em direção ao pátio onde os ônibus costumam estacionar. Orei baixinho pedindo que o Senhor nos abençoasse caso chegasse mais alguém precisando de ajuda, pois tínhamos muito pouco a oferecer àquela hora da madrugada. Enquanto caminhava avistei a chegada de um ônibus, fiquei apreensiva, pois eles vêem lotados de refugiados, muitas vezes, agitados e carentes devido a viagem longa e turbulenta. Senti meu coração acelerar quando outro e outro ônibus se aproximaram, eram dez! Sim! Dez ônibus repletos de refugiados cansados e com fome, depois de viajarem cerca de dez horas vindo da Macedônia até a Sérvia. Parei atônita onde estava e como quem se prepara para pedir ajuda, respirei fundo e retornei correndo ao acampamento. Enquanto corria pensava: ‘Não sei quantos vem. Não sei o que temos. Mas o Senhor irá prover!”

 

Cláudia relembrou estes fatos durante entrevista nas dependências da OM Brasil e contou que, naquela ocasião, ao chegar até sua companheira de voluntariado notou preocupação em seus olhos. Foi então que conferiram que a Kombi que armazenava os mantimentos estava realmente vazia. O olharem ao redor viram alguns balões e lembraram que podiam fazer algumas esculturas de balões para as crianças que chegassem. Em seguida, Cláudia avistou seu violão e se propôs a tocar algumas canções para recebê-los. “Foi o que fizemos”, disse. “Eles foram se agrupando em frente a nossa barraca e comeram o que tínhamos a oferecer. Algumas crianças chegaram chorando, os balões as distraíram e os louvores que eu ia tocando no violão foram, aos poucos, acalmando aqueles corações aflitos. Em poucos minutos alguns daqueles refugiados, que até pouco tempo estavam agitados e apreensivos, começaram a dançar ao som dos meus singelos acordes. Horas se foram e para nossa surpresa ouvimos elogios quanto àquela recepção. ’Que boas vindas incríveis! Ainda não havíamos sido recebidos assim até agora!’ , disseram eles”, relatou a missionária com um sorriso feliz em seu rosto.

 

Para Cláudia foi prazeroso ver como Deus abençoou aquele momento. O pouco que tinham abençoou aquelas famílias e o louvor a Deus trouxe paz àqueles corações, fato que pôde ser percebido até pelos policiais que presenciaram tudo e fizeram questão de agradecê-las pela demonstração de sensibilidade e amor aqueles aos quais elas nem conheciam e nunca mais veriam novamente. Segundo a missionária, ao contrário do que se pensa, esses que conseguem sair da Síria para reconstruirem suas vidas não são pessoas de origem pobre, pois os que não possuem recursos nem sequer conseguem deixar o país. Na Europa, diversas igrejas têm oferecido apoio a esses que enfrentam travessias perigosas pela sobrevivência e, mesmo com a ajuda de fazendeiros que abrem áreas em suas fazendas para facilitar a travessia, existe um alto índice de mortes. Em muitos casos, homens, mulheres e crianças são obrigados a dormir ao relento aguardando pelo momento de seguirem viagem.

 

Cláudia é natural de Minas Gerais e há 14 anos mora na Bósnia, país que ainda vive as marcas da guerra ocorrida nos anos 90 que deixou cerca de 200.000 vítimas e mais de 1.326.000 refugiados e exilados. Ela relembrou que é triste ver como as sequelas emocionais após conflitos armados são profundas e devastadoras em uma nação inteira. “Vejo muitos bósnios jovens adultos que até hoje não conseguem integrar-se à sociedade. Eles têm Medo, medo de que guerra volte e destrua o que resta”, disse. Perguntada sobre a atuação da igreja na Europa em relação aos Sírios, contou que têm não somente prestado o socorro imediato às vítimas, como desenvolvido projetos sustentáveis, possibilitando oportunidades para que os refugiados sírios se integrem à sociedade, aprendendo uma nova língua e um novo ofício. “Temos trabalhado também na união de familiares, isso porque na primeira onda de grupos a deixarem a Síria vieram os homens. Depois contataram suas famílias para que viessem. Com isso, muitos se perderam e, como igreja, temos ajudado neste reecontro”.

 

Como líder responsável por diversos campos missionários na Europa, como Portugal, Espanha, Irlanda, República Checa e Islovênia, Cláudia retornou às suas funções depois daquele episódio na Sérvia, com os refugiados. Meses se passaram e um amigo, que também trabalha com refugiados em sua igreja na Holanda, lhe enviou um e-mail relatando suas experiências com aquelas famílias. Contou que em uma conversa com um homem sírio perguntou como havia sido sua jornada até chegar ali, naquela igreja. A resposta surpreendeu, emocionando até mesmo aquela missionária experiente. Ele disse: “Passei pela Grécia, Macedônia e cheguei até a Sérvia. Lá, cansado e com medo de tudo o que viria pela frente, fui impactado com uma recepção diferente. Voz e violão entoando canções até então desconhecidas por mim foram suficientes para aquietar profundamente meu coração aflito. E, para completar, ao chegar aqui, nesta igreja, fui surpreendido com os mesmos louvores a esse Deus. Como pode? Só sei dizer que tudo isso trouxe muita paz ao meu coração”.

 

Cláudia disse sentir-se muito encorajada ao ver como Deus usa quem está disposto a servir. “Somos muitas vezes acomodados, como igreja, para chegarmos até eles, os refugiados sírios, mas Deus está trazendo-os até nós!”, celebrou ela dizendo que depois daquela experiência na Sérvia ficou claro que o pouco que temos a oferecer pode ser multiplicado por Deus e um simples gesto de oferecer louvores a Ele é capaz de servir como alimento ao coração faminto, pois frequentemente, o anseio por pão não é tão gritante quanto a fome da alma. “Talvez não sejamos nós a ver os frutos, mas plantando as sementes, eles certamente virão!”, concluiu a missionária.

 

Helen Schmidt é jornalista e missionária da OM Brasil. É casada com Rafa Santino, coordenador do ArteSpaço.

 

O papel da OM na Igreja é mobilizar as pessoas para compartilhar o conhecimento de Jesus e Seu amor com cada geração em cada nação. A OM é pioneira e lidera iniciativas para resgatar vidas, reconstruir comunidades e restaurar a esperança em mais de 110 países.

 

Compartilhar
Compartilhar
Curtir
Please reload

Notícias em destaque

Lutando contra a pobreza do conhecimento bíblico

May 31, 2019

1/7
Please reload

Notícias recentes

October 30, 2019