Encontros na enfermaria do COVID-19


#PenínsulaArábica Maria* e seu marido Stefan* mudaram para o Oriente Médio em janeiro de 2020, para começar a trabalhar como parteira. Ao mesmo tempo em que a pandemia do coronavírus chegava à sua cidade, Stefan precisou sair para renovar seu visto. As fronteiras foram fechadas, todos os voos cancelados, então agora cada um está em um país, esperando para serem reunidos de novo. Durante esse tempo, Maria passou a trabalhar numa enfermaria do COVID-19, cuidando dos pacientes ali. Aqui, Maria divide algumas das experiências que teve na clínica onde trabalha.


Eu trabalho em uma clínica particular, mas quando a pandemia começou, o governo pediu que ela começasse a admitir pacientes da COVID-19. No final de março, já não havia pessoal suficiente para trabalhar nessas enfermarias, então me pediram que viesse para cá. Eu disse que não poderia ser parteira e também trabalhar com pacientes da COVID-19. Meus chefes não ficaram muito felizes com isso, e meu trabalho ficou sob análise por alguns dias. Mas finalmente concordaram e agora estou trabalhando somente com pacientes da COVID.


Neste país, se a pessoa é testada como positivo, é levada para o hospital. Portanto, das pessoas que vemos, uma em cada 30 tem necessidade real de ser levada para o hospital. O restante fica em isolamento e logo ficam entediadas. Aqueles que não apresentam sintomas estão muitas vezes doentes emocionalmente. Muitos temem morrer, mesmo não estando doentes. Eles passam por um processo de luto, assustados, depois passam a sentir raiva por serem forçados a ficar no hospital, e enfim sofrem de depressão e chegam à aceitação. Muitos só querem uma garantia de que sairão de lá.


Todos os pacientes estão em quartos individuais; eles não veem mais ninguém. Aqui eu não estou usando as minhas habilidades como parteira, então eu tenho tempo para conversar com as pessoas, e isso realmente faz diferença. Isso muda a maneira como as pessoas agem em relação a mim, porque eu dedico tempo a elas e as ouço. Essa é uma grande oportunidade, especialmente porque posso passar tempo com pessoas que normalmente eu não teria oportunidade – inclusive homens.


Um oficial sênior está em nossa enfermaria. A princípio, ele perguntou se havia algum homem árabe por lá com quem ele pudesse falar. Quando eu disse que não havia nenhum, ele perguntou se havia qualquer outro homem. Como não havia, ele perguntou se eu conversaria com ele. Eu concordei, e agora nós conversamos sempre que estou trabalhando. A política está mudando, e os pacientes estão sendo levados para passar suas quarentenas em hotéis. Esse homem pediu para continuar na nossa enfermaria, porque ali havia pessoas com quem ele podia conversar. Ele permaneceu, e nossas