• Ellyn S.

"Nós tivemos que sair"


Por Ellyn Schellenberg

Tradução de Jaqueline Galhardo

Entre 25 de agosto a 29 de outubro, cerca de 607 mil pessoas do estado de Rakhine, em Myanmar, cruzaram a fronteira para a cidade de Cox’s Bazar em Bangladesh, e todos os dias mais pessoas fazem essa viagem. O ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) declarou que este onda de refugiados é "a crise de refugiados de mais rápido crescimento do mundo e uma grande emergência humanitária".

O OM tem uma equipe estabelecida em Bangladesh para avaliar a situação do local e avaliar como a OM pode fazer a diferença ali. A escritora da OM Ellyn Schellenberg visitou os campos de refugiados para ouvir as histórias daqueles que chegaram e ficaram lá.

As barracas estão por toda parte. Camadas sobre camada de plástico azul e laranja cobrem quase todos os centímetros dos campos de refugiados que vão além da area de Cox's Bazar. Os becos estreitos entre as tendas permite espaço para que apenas uma pessoa passe de cada vez. Os caminhos são de lama e muito escorregadios, pois as crianças buscam água da bomba mais próxima e acabam derramando água dos baldes, criando a lama. Em alguns lugares, as árvores são as únicas que impedem a construção de tendas, e mesmo estas estão sendo cortadas para lenha.

É possivel ver os rostos das mulheres espiando entre as tendas feitas de bambu e lonas. Muitas estão segurando seus bebês, deitados imóveis, enfraquecidos pela desnutrição provocada por dias ou mesmo semanas de caminhada. Seus corpos pequenos e nus estão apáticos no calor sufocante, e sua pele morena, uma vez linda, agora é uma sombra horrível de rosa descolorido e nada natural.

Grandes famílias se espremem em poucos metros quadrados que tem em suas tendas, com apenas uma pequena abertura e nenhuma ventilação. O fogo para cozinhar mantem a tenda cheia de fumaça e ainda mais quente. O ar é bem umido, e apenas uma brisa ocasionalmente traz algum alívio.

As crianças estão em todos os lugares: correndo ao longo dos pequenos becos, agachadas nas sombras, brincando com garrafas de plástico e madeira, correndo pela estrada principal, bem perto do tráfego local. E como crianças comuns elas jogam, descobrem novos jogos e coisas novas para entretê-las. Exceto, quando percebo que suas lágrimas parecem vir um pouco mais rápido quando caem, seus punhos irritados voam um pouco mais cedo, e para alguns, o horror do recente trauma lança uma escuridão em seus olhares.

Enquanto ando pelo campo, faço contato visual com aqueles que vejo para oferecer um sorriso. Espero que alguns deles possam compartilhar sua história comigo, e que eu possa compartilhar uma palavra de encorajamento com eles, por mais trivial que pareça em relação ao que passaram. Fiquei impressionada com o número de pessoas que sorriem de volta e me chamam para conversar.

Histórias de perda, dor e tristeza.

Um jovem e sua família em sua barraca se abriram sobre sua situação. "Eles mataram nossos filhos, estupraram nossas mães e queimaram nossas aldeias", disse Jarbair, de 24 anos. "Nós não conseguimos protegê-los. Não conseguimos salvá-los. Então, tivemos que sair.”

Jarbair era estudante em seu primeiro ano na universidade, estudando geografia para ser professor, antes que ele e sua família fugissem de Myanmar. Nos últimos dois meses, eles estiveram no campo de refugiados, incapaz de sair de lá ou encontrar trabalho.

As histórias que ele nos conta são quase insuportáveis. "Eu assisti eles capturarem as crianças e queimá-las", disse ele. "Eles formaram um círculo ao redor da aldeia e se aproximaram, capturando as pessoas enquanto fugiam." Quando ele e sua família escaparam, viu buracos no chão que haviam sido cavados e estavam cheios de corpos.

Em outra conversa, Dineh, 70, conta uma história igualmente trágica. "Meu filho estava em uma mesquita quando os militares chegaram", lembrou ele. "Ele tentou fugir, mas eles atiraram nele e ele morreu na rua. Não conseguimos trazê-lo para casa e enterrá-lo. Ele foi colocado numa fossa cheia com muitos outros corpos”. O outro filho de Dineh, ouvindo nossa conversa, acrescentou: "Em todo lugar sentia-se o mau cheiro da morte. Havia tantos cadáveres." A família fugiu e se escondeu na selva entre sua aldeia e a fronteira de Bangladesh por quase 10 dias. Eles só se reuniram no campo de refugiados após um mês. Antes de fugir, Dineh tinha pescado e cultivado seu pequeno campo para alimentar sua família. Agora, ele e seus filhos sentam-se ociosos no acampamento.

Eu ouvi outra história semelhante de militares cercando homens em uma aldeia. Eles levaram aqueles que tinham mais de 18 anos a um prédio, os amarraram e os mataram. Aqueles que conseguiram, fugiram para a selva que estava em volta. "Vi mães e filhos mortos ao longo do caminho", disse Jubayda, uma mãe de três filhos. "Nós vimos com nossos próprios olhos que os militares estavam matando as pessoas. E tivemos medo." Depois que sua aldeia foi queimada por mísseis e muitos outros foram mortos, ela fugiu com seus filhos, sem saber se o marido estava vivo.

Outra mãe de oito filhos, Kurshida, compartilhou: "Nós carregamos nossos filhos, às vezes em nossas costas, às vezes em nossos xales; às vezes com muitas crianças juntas de uma vez. Nós as amarramos a nós mesmas e as carregamos." Durante 15 dias e noites, Kurshida e um grande grupo viajaram pela selva em direção à fronteira com Bangladesh. Para alguns, a viagem tornou-se demais para suportar. "Eu vi uma mulher incapaz de levar seus filhos, então ela colocou-os na selva e os deixou para trás", disse Kurshida.

Cada pessoa que eu falo no campo conta uma história de perda, dor e tristeza, e imagino que cada um dos 607.000 Rohingya que fugiram por suas vidas sentem medo, ansiedade e incerteza similares. Não há respostas fáceis para as perguntas sobre se eles serão capazes de voltar para casa, se vão se reunir com os familiares desaparecidos, ir à escola novamente ou encontrar outro emprego. Mas no meio de tanto sofrimento, uma verdade permanece: eles merecem ouvir que são amados e que eles são importantes.

Para este fim, a OM planeja criar vários lugares seguros nos campos para crianças, onde elas podem jogar e processar o trauma em uma área protegida, e onde seus pais podem conversar com pessoal treinado para ajuda em estresse pós-traumatico. As crianças e os pais claramente traumatizados, identificados pelo pessoal, serão encaminhados para novas conversas e acompanhamento ao Estresse Crítico de Incidentes. Esses lugares seguros também proporcionam aos funcionários a oportunidade de identificar novos riscos na comunidade, como violência sexual, desnutrição e doenças. Através da identificação precoce desses problemas, os mais propensos podem ser “protegidos” usando uma rede estabelecida com outras organizações de resposta a desastres.

Além disso, a OM planeja fornecer uma área de banho segura para mulheres e crianças, educação sobre boas práticas de higiene e saneamento, itens não alimentares como utensilios de cozinha, pacotes de higiene e mosquiteiros. Atualmente, os chuveiros existentes são usados ​​principalmente por homens, e as mulheres mais conservadoras evitam ir até ai. Os acampamentos são tão grandes que os vizinhos não conhecem e nem confiam uns nos outros. Isso levará tempo e ajuda para atividades organizadas para estabelecer um novo senso de comunidade.

Por favor, ore pela cura dessas famílias Rohingya e muitas outras familias como essas que estão nos campos em Cox's Bazar. Para maiores informações, ou ajudar, entre em contato com a OM Brasil (comunicacao.br@om.org).

Texto original aqui.

A OM em Bangladesh conta com uma família de missionários brasileiros atuando.

O papel da OM na Igreja é mobilizar pessoas para compartilhar o conhecimento de Jesus e Seu amor com cada geração em cada nação. A OM é pioneira e lidera iniciativas para resgatar vidas, reconstruir comunidades e restaurar a esperança em mais de 110 países.


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